Em Portugal, a fatura da eletricidade é complicada de entender

A nível ibérico, recorrentemente surge a dúvida de saber se o mercado elétrico português, comparativamente ao espanhol, tem custos maiores e uma maior carga fiscal.

O JE questionou Miguel Checa, gestor espanhol, madrileno, sobre a perceção que um consumidor de Madrid pode ter sobre o mercado português: É mais caro? “Não é mais caro que o mercado espanhol. É verdade que em Portugal a fatura da eletricidade é complicada de entender. Há várias parcelas que temos de perceber para entendermos esta fatura. O IVA é mais caro. Em Portugal pagamos 23% de IVA e em Espanha ficamos em 21%. Depois há os custos de acesso: em Portugal há as ajudas às energias renováveis, enquanto em Espanha há a amortização das energias nucleares, há as taxas de resíduos e os impostos sobre emissões de carbono, que são as partes diferentes nos dois países. Mas depois o custo de produção de eletricidade é o mesmo nos dois mercados ibéricos, que estão unidos, em mais de 90% das horas, tendo preços semelhantes na geração. Onde há efetivamente uma diferença é em relação aos preços da energia praticados em França e em outros grandes mercados do norte da Europa. Se confrontarmos os preços praticados em França e na Alemanha, aí sim, há diferenças em relação aos valores praticados no mercado ibérico”, refere Miguel Checa.

“Por exemplo, no início de julho, o preço da geração elétrica em França e na Alemanha tinha 15 euros de diferença. Em Espanha, a geração estava a ser paga a 52 euros, mas em França custa menos, por causa da componente da produção nuclear”, adianta o administrador. Será que a indústria automóvel tem razão quando se queixa do preço da eletricidade em Portugal? “Sim, face a França, isso é verdade. Mas Portugal não tem eletricidade mais cara que em Espanha”.

Admitindo que as realidades de França e da Alemanha são diferentes, como se conseguirá criar um mercado elétrico com menos diferenças entre o norte e o sul na Europa? Para rebater as diferenças – e isso é um objetivo da União Europeia -, para reduzir a volatilidade e aproveitar as tarifas mais baixas, será importante investir na melhoria das interligações a França. É preciso concretizar maiores investimentos. Fazem falta investimentos maiores para aumentarmos a capacidade de importação da eletricidade gerada em França a preços mais baixos”, defende.

No entanto, persiste uma dúvida “histórica” sobre os constrangimentos na capacidade de interligação elétrica nos Pirinéus: Espanha aceitaria ter feito mais interligações elétricas a França e admitiria, igualmente, a entrada em Espanha do gigante francês EDF? Miguel Checa analisa a questão de uma perspetiva diferente, admitindo que os principais entraves ao desenvolvimento de novos investimentos nesta geografia estiveram sempre mais do lado francês. “Julgo que as dificuldades existem porque França não tem tanto interesse no fornecimento da sua eletricidade a Espanha. Do ponto de vista da nossa empresa e do nosso acionista suíço, Axpo, teremos todo o interesse em que sejam aumentadas as interligações das redes elétricas espanholas e francesas. Tudo o que permitir aumentar a capacidade dos mercados, para quebrar a dependência aos produtores locais e ter um mercado maior, mais livre e mais global, será fabuloso”, considera o administrador.

FONTE: https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/eletricidade-mais-cara-que-em-franca-472098

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